segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Diante de um novo ano

Reproduzo, aqui, parte de mensagem feita a partir de escritos de Voltaire.  É uma prece, mas também um bom material para reflexão.



Deus de todos os seres, de todos os mundos, de todos os tempos. Se é permitido a frágeis criaturas, não percebidas para o resto do universo, atrever-se a Te pedir algo, a Ti, que tudo nos tens dado; a Ti, cujos decretos são imutáveis e eternos; olha com piedade os erros de nossa natureza. Que esses erros não sejam calamidades.


Afinal não nos deste o coração para nos aborrecer e as mãos para nos agredir.



Faze com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e fugaz.



Que as pequenas diferenças entre os trajes que cobrem nossos frágeis corpos, entre nossas insuficientes linguagens; entre nossos ridículos usos, entre nossas imperfeitas leis, entre nossas insensatas opiniões, entre nossas condições tão desproporcionadas aos nossos olhos e tão iguais diante de Ti; que todos esses matizes, enfim, que distinguem os átomos chamados homens, não sejam sinais de ódio e de perseguição.



Que aqueles que acendem velas em pleno meio-dia para Te celebrar, tolerem os que se contentam com a luz de Teu sol.



Que os que cobrem seus trajes com tela branca para dizer que devemos amar, não detestem os que fazem o mesmo sob uma capa de lã negra.



Que seja igual adorar-Te em dialeto formado de uma língua antiga e em uma recém-formada.



Que todos os homens se recordem de que são irmãos!



Se os açoites da guerra forem inevitáveis, dá-nos condições de não nos desesperarmos.



Que não nos destrocemos uns aos outros em tempos de paz.



Que empreguemos o instante de nossa existência em bendizer em milhares de idiomas, desde o Sião até a Califórnia, Tua bondade que nos concedeu este instante.



Originados da mesma fonte, amparados pelo mesmo Pai, todos os homens somos irmãos.



Se as fronteiras nos dividem em países e nações, se os idiomas nos criam dificuldades de comunicação, se as distâncias nos impedem de nos entrelaçarmos, a vibração da fraternidade deve vigorar em nossos corações.



Todos fomos criados por amor, somos filhos da Luz e destinados à Luz.



Por ora, e somente por agora, nos situamos em painéis diferentes. Mas um dia, além do corpo, transcorrido todo o caminho, todos chegaremos ao mesmo fim. A casa do Pai. A perfeição.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Se eu fosse eu


Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou se ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecimento. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Clarice Lispector, 1968.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Meus votos para este tempo de festa!



Para todo solo árido,
existem rios cristalinos de alegria.

Para toda ilha de afeto sonegado,
existem arquipélagos de esperança.

Para todo bailar em desafinados acordes,
existem rodopios de pássaros, anjos e estrelas.

Para todo crepúsculo,
existe o milagre da vida que desafia, descortina e reverencia a aurora.

No Natal e em 2015, estejam EM VOCÊ:
os rios, os arquipélagos, os rodopios, o milagre.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

De volta, neste Dezembro!

Depois de alguns meses sem postar, estou de volta.  Recorro, mais uma vez, ao glorioso Drummond para "abrir" o mês (aqui no Blog) e meu retorno ao espaço:
  

Quem me acode à cabeça e
ao coração
neste fim de ano, entre 
alegria e dor?
Que sonho, que mistério, 
que oração?
Amor.
 

(Carlos Drummond de Andrade - Dezembro de 1985)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

ONU exclui Brasil do mapa da fome

O relatório da FAO – braço das Organizações das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura –, divulgado no dia 16 de setembro, excluiu o Brasil do mapa da fome e da miséria no mundo. 

O documento mostra que havia 19 milhões de pessoas em situação subalimentar no Brasil há 11 anos e hoje existem 3,4 milhões, ou seja, 1,7% da população. A ONU excluiu do mapa da fome os países que têm menos de 5% da população em situação subalimentar. “É a maior demonstração de que o sonho de uma geração, de ter um país sem fome e sem miséria, está sendo realizado”. “Agora o fim da miséria é só o começo”,  disse a presidente Dilma.


“Só tem 37 países na mesma situação que o Brasil”, reforçou a presidente. 
Dilma atribuiu a redução da fome no país a programas sociais da gestão petista, como o Bolsa Família, associados a outros índices favoráveis de inclusão social, como a ampliação das vagas de emprego, valorização do salário mínimo e o aumento do número de microempreendedores individuais. 
Outro fator que contribuiu para atingir essa meta – que faz parte das metas do milênio – foi, segundo Dilma, o fortalecimento da agricultura familiar. Ela citou um programa de educação que obriga a aquisição de uma cota de 30% de alimentos da agricultura familiar para a merenda escolar. Dilma afirma que essa foi uma das medidas que contribuiu para reforçar a ingestão de proteínas na alimentação dos brasileiros. 

Leia na íntegra em:
http://www.valor.com.br/politica/3698644/dilma-comenta-relatorio-da-onu-que-exclui-brasil-do-mapa-da-fome, por Andrea Jubé e Bruno Peres. 



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Wanderley Guilherme dos Santos: ” A oposição quer colher o que não plantou”

Quando escreveu a obra Quem vai dar o Golpe no Brasil?, em 1962, Wanderley Guilherme dos Santos conquistou um respeitável espaço na ciência política ao antever a tramoia civil-militar detonada dois anos depois, que interromperia por quase três décadas os avanços sociais, políticos e culturais do país. Desde então, jamais deixou de investigar as contradições e desafios da democracia brasileira. Ainda hoje, estuda de seis a oito horas por dia para quatro pesquisas acadêmicas – sem deixar de desfrutar, “a lazer”, de livros de arqueologia, romances policiais e séries do Netflix.
Com história acadêmica ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde graduou-se em Filosofia em 1958, hoje é professor aposentado de Teoria Política da UFRJ, professor e fundador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj). A completar 79 anos no próximo 13 de outubro, com 18 obras publicadas, dedica um de seus trabalhos a desconstruir as contradições entre os liberais contemporâneos e a escola do pensador Adam Smith, precursor dessas teorias no século 18, mas que mesmo ele ainda pressupunha ter uma dose razoável de valores morais humanistas e solidários a sustentar as sociedades que viriam a fundar o capitalismo – “Vivemos o mundo da antipatia social”, diz.
Para o cientista, poucas vezes o Brasil tentou empreender um ciclo econômico mais expansivo para o desenvolvimento humano. Teve alguns períodos, com Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, em que os avanços acabaram sendo alvos de “vetos das elites”. Segundo Wanderley, as políticas sociais iniciadas por Lula em 2003, seguidas de investimentos em infraestrutura antes negligenciados pelos governos de plantão, iniciaram um novo ciclo – mantido e ampliado por Dilma –, que permitiu ao país trilhar rumos diferentes dos ditados pelas potências do centro econômico que semearam a crise mundial de 2008. Ele acredita que o Brasil está pronto para novos saltos de crescimento em seu PIB nos próximos anos. Está em jogo nestas eleições uma disputa com a velha oposição despida de projetos, ávida para desfrutar desse legado e desviar-lhe da rota mais adiante.
Um trabalho seu de 1962, Quem vai dar o golpe no Brasil?, anteviu 1964. E hoje, o senhor vê algo que permita temer um choque de retrocesso da democracia?
Em absoluto. Em 64 havia uma fragmentação das forças políticas relevantes, além de a própria sociedade também estar muito fragmentada. Isso tornava impossível a formação de uma coalizão sustentável de apoio ao governo. Por outro lado, a oposição também estava de tal modo fragmentada que não conseguia formar uma coalizão alternativa, só conseguia formar uma coalizão de veto. E havia uma radicalização ideológica profunda que não permitia uma composição. Era impossível a negociação política. A proposta hegemônica da esquerda no período, de pressionar pela aprovação de um projeto consistente de desenvolvimento, era suicida. Isso hoje não existe.
Em um artigo recente na revista CartaCapital, o senhor fala da presença, no cenário político, dos “especuladores da moral”. Qual é a semelhança entre eles e os especuladores do mercado financeiro?
Os especuladores dos mercados financeiros lucram com expectativas. Não criam nada, captam recursos e os revendem. O lucro deles não vem da criação de produto. Vem da diferença obtida com a especulação. A mesma coisa são os especuladores do mercado político. Eles criam fatos e factoides, podem eventualmente “lucrar” algo, um acréscimo em termos de aprovação, mas sem a criação de um projeto. A fama ou o apoio que recebem não decorre de uma sugestão de valor nacional ou econômico, mas de uma expectativa. É simplesmente “vamos acabar com a corrupção”, “isso tudo precisa mudar” etc. O sucesso tanto em um caso, o especulador financeiro, quanto no outro, o especulador moral, não decorre da criação de nada. Decorre da manipulação de expectativa. É a mesma coisa.
O mundo ainda sofre efeitos da crise de 2008, mas os países do centro econômico ainda querem restaurar os mandamentos que desencadearam a crise. Os mercados podem determinar as dinâmicas dos governos?
O potencial de novas ondas especulativas escapa da possibilidade de intervenção de governos como o brasileiro e de outros países emergentes. O que cabe a países como Brasil, Índia, Argentina, México, é administrar a defesa dos efeitos negativos desses ciclos. E nesse sentido o desempenho do Brasil tem sido espetacular. Mas os empresários brasileiros ficam na expectativa das decisões do FED (o banco central norte-americano) mais que das decisões do BC. Isso mostra o caráter subordinado de uma parte da economia brasileira, e curiosamente a que tem um papel importantíssimo, uma vez que os estímulos para a expansão e fortalecimento desse segmento industrial têm sido dados sistematicamente pelo governo, pela defesa do mercado interno justamente quando acaba o mercado externo. O empresariado pouco moderno não acompanhou a transformação do país.
Fala-se muito em gargalos de infraestrutura que não deixam o país ser competitivo, o que, aliás, não é de hoje. O país deixou de fazer alguma lição de casa?
Aí é que está a questão. Durante décadas, o Brasil, seus governantes e mesmo seu empresariado nascente não estavam dispostos ou preparados nem para sonhar com um país moderno, economicamente forte, aquilo que eles diziam que queriam. Na década de 1930, o debate fundamental era se o Brasil só devia exportar ou se devia criar indústria. Então, durante todas essas décadas, em não havendo sonho da possibilidade de um país moderno, não foram lançadas as condições básicas dessa modernidade, rodovia, ferrovia, aeroportos, transportes hídricos, nada. Isso tem a ver com o PIB, hoje dito pequeno, e do qual a oposição brasileira deseja se aproveitar nos próximos anos.
O que está acontecendo agora é justamente um investimento maciço naqueles setores, nas condições absolutamente necessárias para o crescimento do PIB. Porque no contexto existente não haveria mais como crescer o PIB, não tem mais pra onde andar o agronegócio, não tem como as empresas industriais crescerem. Então, o Brasil cresceu enquanto foi possível. Para crescer mais, não tem jeito: tem de expandir isso, e isso obviamente, enquanto está sendo feito, reduz um pouco a capacidade de crescimento. Agora a partir de 2016, 2017…
Os números do PIB são confiáveis e essenciais?
O número considerado do PIB é o geral, a média do país. Se tomarmos por setores, transporte, aeroviário, portuário, seria muito diferente. O número geral dilui os indicadores e tem servido pouco para medir o que está se passando no país em termos de transformação. O crescimento do PIB do Nordeste nos últimos anos é três a quatro pontos percentuais acima do crescimento nacional. O do Centro-Oeste é PIB chinês. Como o indicador nacional inclui tudo isso e misturado, fica pequeno. Quando todos os investimentos – em geração de energia, portos, estradas etc. – que hoje estão sendo feitos estiverem em condições de operar, o PIB vai ser uma enormidade. A oposição sabe disso. E se chegasse ao governo se apropriaria. Diria: “Tá vendo? Como eles não sabiam governar, o PIB agora está crescendo”. Seria fácil, porque, até apesar dessa oposição, o PIB vai crescer. Houve o crescimento da renda e do mercado interno, está havendo crescimento da infraestrutura e descentralização da economia – o que era fundamental. A oposição quer colher o que não plantou.
A propósito de oposição, fala-se muito numa suposta necessidade de medidas impopulares, reduzir salários, promover desemprego para segurar a inflação, cortar gastos públicos. Precisa?
Do ponto de vista do manual ortodoxo da economia, e daí o meu espanto com a mediocridade dos nossos economistas de oposição, eles estão certos. Afinal, é isso que está escrito nos livros, e eles não conseguem dizer outra coisa. Mas estava escrito em 2002 também, em 2005, 2006. E a partir de 2007 o país começou a fazer o PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento. E em 2008, quando começou a crise braba, o Lula já havia promovido um processo de substituição de consumidores. Durante muito tempo, o Brasil viveu um processo de substituição de importação. A partir das políticas de transferências de renda, de valorização do salário mínimo, de estímulo ao consumo interno, o Brasil chegou a 2007, 2008, pronto para um processo de substituição de consumidores. E isso não ocorreu a nenhum deles da oposição. Não há uma determinação divina de que a aplicação de sua cartilha seja inevitável. A espécie humana sobrevive justamente por sua capacidade de se reinventar e superar desafios. E não por reincidir em experiências desfuncionais, como essas medidas de austeridade. Como é que elas podem ser consideradas remédios eficazes para os mesmos problemas que ajudaram a causar?
Em 2006, antes da reeleição do Lula, seus articuladores argumentavam que o governo ainda devia muito ao país, pois não se resolvem 500 anos de problemas em quatro. Que ficou devendo em relação ao que havia prometido, mas que não ficou devendo a nenhum governo anterior. Esse diagnóstico ainda perdura?
No primeiro mandato, de 2003 a 2006, foram lançadas bases de uma política social que propunha distribuição de renda. Bolsa Família, valorização do salário mínimo, ProUni, redução de impostos, política de cotas, Minha Casa, Minha Vida… Agora, é preciso equacionar as reformas por onde vai caminhar o desenvolvimento, senão nem essas políticas se sustentam. Há uma lista enorme de programas criados entre a década passada e depois de 2010. Hoje, para gente que antes não existia, há a presença do Estado do berço à velhice, mas isso será sempre pouco, estará sempre aquém da capacidade de qualquer governo. A política social “cria problemas” para si própria. Excelente! Então, a partir de 2007, começa uma mudança estrutural em relação aos eixos anteriores e tudo isso deixa um legado histórico. O que está sendo feito é o Brasil moderno, do século 21, não é brincadeira. Agora é que estamos terminando a primeira grande fase do governo dos trabalhadores, que se deu em duas etapas, uma de 2003 a 2006 e outra de 2007 para cá. E agora virão os grandes PIBs.
O que definiria a ruptura com a “outra fase”?
O Pronatec já havia sido criado pelos quadros do Ministério da Educação ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, mas o governo vetava. Já existia um programa social aqui e ali, mas que não fazia diferença na vida do país. Então, a ruptura foi em 2003, quando se dá um significado maior a esses programas e a seus efeitos. E agora continua. O que existe hoje é um conjunto de políticas destinadas a segmentos sociais que até 2002 não faziam parte dos roteiros governamentais. A agenda de vetos dos governos elitistas, até 2002, era maior que a agenda positiva. A elite se unia em torno do que não queria que fosse feito. A ruptura com isso teve de ser enorme, e está sendo. E quando você mexe em algo em que antes não se mexia tem consequências. Então, claro que há deficiências, mas criadas pelo avanço. E que só pelo avanço serão resolvidas.
A existência de mais de 30 partidos não é um entrave para o entendimento pelos cidadãos da democracia e da política como meio de ­realização de suas aspirações?
Não é a quantidade de partidos que determina se o sistema político funciona ou deixa de funcionar. A Inglaterra, por exemplo, tem 12 partidos, mas a taxa de desperdício de voto na Inglaterra, ou nos ­Estados Unidos, é fora do comum. O Brasil tem uma das menores taxas de desperdício do voto do mundo, porque aqui todos os votos contam: o seu voto para uma pessoa, mesmo que ela não se eleja, conta para a coligação. Na verdade, haveria muito menos problemas se não tivesse um segundo turno eleitoral. A necessidade de ir para um segundo turno é que faz com que você tente se apropriar de uma mercadoria criada pelo Tribunal Superior Eleitoral, que é o tempo de televisão, a moeda de chantagem dos pequenos partidos.
O senhor acha que a Marina é uma terceira via como pretendia ser o Eduardo Campos?
Marina Silva é o que há de mais atrasado dentro do espectro político brasileiro. Ela é atrasada economicamente, na concepção de sustentabilidade que tem, na modernização da política da produção, em termos de costumes sociais, em relação a tudo. É uma missionária retrógrada. E pode ganhar uma campanha contra ela, se ameaçar Aécio.
Os protestos do ano passado produziram um impacto negativo sobre a política – sem nome, sem rosto, nem classe, nem lado – e também ao PT e a Dilma. Por que os outros políticos não foram chamuscados?
Eu não tenho resposta para isso a não ser uma brincadeira: São Paulo deveria ter sido vitorioso em 1932, porque isso só acontece em São Paulo. Em Minas, que foi o terceiro estado a ter mais depredação e violência, o Fernando Pimentel (PT) está levando numa boa. E aqui no Rio, o segundo, não existe PSDB. No Rio sempre foi uma disputa ruim, mas não como São Paulo. O Garotinho é o norte atrasado do estado. Não houve nada no Norte Fluminense em junho de 2013, nem em 2012, nem em 2011, está fora do tempo. E o Garotinho que querque continue atrasado, porque se avançar ele deixa de ser representante. O Crivella é o evangélico. Pezão é um centro mais moderno, mas não é “político”. Lindberg é aventureiro. Então, o Rio de Janeiro está essa porcaria.
O senhor escreveu que considera a mídia brasileira fechada e reacionária e que a principal vítima disso é o cidadão comum. Por que o governo não mexeu nesse vespeiro?
Eu diria que é o dilema do revolucionário. Um líder revolucionário não toma uma iniciativa se não sabe qual apoio terá. Há dois erros possíveis de cálculo: um é não tomar a iniciativa quando haveria um apoio grande, mas que não pode se manifestar porque não houve uma ação inicial, uma sinalização; outro é quando há a iniciativa e não há apoio nenhum. Eu não sei qual foi o cálculo feito pelo governo. Mas se pensa que tem pouco apoio para essa medida, está temeroso demais.
Estaria superestimando o poder das empresas de comunicação…
Eu acho que esse foi o cálculo. Então, tem de haver um poder de persuasão. Se tomar iniciativa, poderá constatar que o mesmo povo que antes da revolução parecia não estar nem aí pode chegar e dizer “opa! era por isso mesmo que eu não estava satisfeito, eu vou nessa…” O próprio ato ilustra, ilumina, esclarece. Eu posso citar Lênin: a revolução educa. Há uma óbvia insatisfação do cidadão educado, que busca revista, jornal, procura se informar. E pra isso é que existe a política, para dar exemplo, fazer e ver o que acontece. Não vai ter censura nem restrição de liberdade. Quem não está satisfeito com o jornal vai querer que o jornal acabe? Não. Vai querer um jornal melhor.
O que o senhor acha do ensino universitário? O número de universidades públicas aumentou, algumas passam por crises. No geral, a universidade brasileira vai ajudar a construir um novo modelo de sociedade? Ou ficou voltada para formar reprodutores do sistema baseado no consumo?
O crescimento indubitável do número de universidades e de universitários fatalmente vai levar a uma redução do nível. Vai ter de haver um tempo de maturação para que essas universidades passem a ter realmente um papel maior na criação do saber. E não vejo como justo cobrá-la disso agora. Há, sim, nichos de excelência que estão botando pra quebrar. Mas o problema é que a universidade no mundo todo está ficando obsoleta, porque a taxa de crescimento do conhecimento e suas subsequentes criações tecnológicas estão a uma velocidade que a universidade leva tempo para alcançar. A universidade é uma organização, uma forma de garantir a manutenção e a difusão do conhecimento, e nela outros conhecimentos vão surgindo. O problema é que hoje a universidade difunde um conhecimento que já é obsoleto.
O mundo está perdendo a fertilidade de líderes e pensadores? Ainda vai haver inteligência capaz de propor novas soluções?
Ah, vai, de outro tipo, mas vai. Eu tenho um neto de 8 anos, ele vive num mundo do qual eu não participo. Sabe tudo, faz o diabo, tem opiniões estéticas dos filmes que vê com o pai e a mãe, sobre pintura, vai a museu. Essa cultura faz parte da formação dele. Eu sou um homem obsoleto, mas as novas gerações não são. Tenho dificuldades de incluir na minha concepção humanista certos tipos de procedimentos ou de concepções, que eles tratam de maneira perfeitamente natural.
Assim como o século 19 absorveu tudo aquilo que foi criado no século 18, que foi um século de explosão cientifica. Enquanto pensadores do século 18 resistiram às novidades, os do século 19 reagiram numa boa. Isso pra mim (aponta para o computador) não é natureza. Pra mim, natureza é datilografia, aprendi numa boa; aprendi taquigrafia… Então, o problema da universidade é complicado, de longo prazo e não sei como vai ser resolvido. Eu sei que o que ela está ensinando é obsoleto, mas quais são os canais para refazer aquela junção entre a difusão e a inovação? Não faço ideia.
O senhor ainda lê muito?
Estou trabalhando em quatro pesquisas. Uma ­delas tem a ver um pouco com esse “mundo.com”, ­esse mundo novo, do ponto de vista social. Esses grupos pequenos que aparecem têm a ver com o ­processo importantíssimo da divisão social do traba­lho globalizado que está em andamento e é irrever­sível, vai tomar conta. Eu estava lendo ­ontem que o (empresário do setor de siderurgia) Jorge ­Gerdau ­está montando­ fábrica não sei onde porque­ fica mais barato do que montar aqui. Imperialismo moderno. Um produto hoje tem um componente fabricado na Austrália, outro na Inglaterra, outro no Rio Grande do Sul, e mesmo incluindo os custos de transporte, e instalando uma outra unidade não sei onde para receber tudo e montar, sai mais barato do que fazer tudo numa planta só. É o outsourcing economics. Provoca impacto nas cadeias produtivas e também nas cadeias de solidariedade entre os trabalhadores. Não há uma formação de uma identidade permanente de um certo setor, porque não tem “um” setor. Parte dos precarizados da Espanha tem a ver com isso.
E como está indo?
Eu comecei com Adam Smith (precursor da teoria do liberalismo econômico, 1723-1790) e os clássicos. Sempre houve na economia de mercado uma tensão entre o interesse material e os valores morais – simpatia, benevolência, solidariedade, nada disso junta com interesse material. Isso é uma tensão muito grande, em todos os séculos que eu estou vendo, de lá até o momento atual. Que é um momento de subversão, de recusa da tentativa de encontrar uma solução que compatibilize, é um momento de “fodam-se”. Smith desenvolveu o conceito do fundamento utilitário da simpatia social, termo com que ele explicava a origem da capacidade da humanidade, apesar da naturalidade de seu egoísmo, de imaginar-se no lugar dos outros, o que torna as pessoas conscientes de si e da moralidade de seu comportamento. E a desistência dos pensadores liberais contemporâneos em relação é isso é total. Então, é o mundo da antipatia. Estou te dando de primeiríssima mão como é que eu vou estudar o mundo moderno no qual o Brasil está entrando.
Seria o mundo da desumanização das relações?
É. Você vê aquela disputa em torno da biografia autorizada? Você transforma tudo em mercadoria, não é? A biografia só autorizada significa o seguinte: eu faço da minha vida uma mercadoria. A Paula Lavigne, é isso que ela está dizendo: “Não é que a gente não queira, só precisamos negociar…” O Roberto Carlos está vendendo a própria biografia. É claro que é seletiva. Uns pedaços que dão mais ibope. O resto ele não conta. “A vida secreta de Roberto Carlos por ele mesmo”…
Mas vai vender…
Oh! Mas, meu caro, esse é o mundo horroroso no qual nós estamos entrando. É claro que isso não vai ficar sem resposta. Nem sem reação. Esse é o inimigo. A “mercadorização” de tudo. O cálculo utilitário levado às últimas consequências.

por Paulo Donizetti de Souza, da RBA
Colaborou Vitor Nuzzi
In: http://www.viomundo.com.br/politica/wanderley-guilherme-dos-santos-2.html 

Moça, você é tão bonita

Depois de quase um mês sem postar, volto com um poema que encontrei na página do face de minha nora, compartilhado por ela da página "Não Khalo".  Como todo bom poema, faz bem à alma e ao coração.  Nesse caso, em especial ao coração feminino, esteja ele em que corpo estiver.


É tão bonita quando não cala
Não descansa e vai pra luta
Quando é pouco dos outros
E muito mais tua. 
 
Moça, você é tão bonita
Quando grita
Quando não se apaga
Quando se irrita

Moça, você é tão bonita
quando se une
Quando se basta
Quando se soma

É tão bonita
Sua luta
Sua poesia
Sua calmaria
Sua indignação

Quando você
Não se perde
Quando sua força
Cresce
Quando resiste
Quando persiste
Fica tão mais bonita

Quando não se esvazia
Nem um pouco metade
Nem pouco vazia
É tão bonita quando não cala
Não descansa e vai pra luta
Quando é pouco dos outros
E muito mais tua





quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sobre depressão, luta e covardia

A morte, essa única certeza que temos na vida, nos choca a todos.  Por vezes, nos silencia; outras, nos faz falar, na tentativa de pôr pra fora o que nos assombra, nos desola ou, simplesmente nos faz pensar...

Na última segunda-feira, dia onze de agosto, morreu Robin Williams.  Do muito que tem sido falado, escrito, comentado, me identifiquei particularmente com a postagem feita pelo escritor, diretor e crítico de cinema, Pablo Villaça, em sua página no facebook.  Não tecerei quaisquer considerações acerca do seu registro. Compartilho aqui e desejo que possam saborear suas palavras, como todo texto bem escrito merece e faz merecer a seus leitores!



Âncora da Fox News chama Robin Williams de “covarde” por ter se matado. A Fox é a Veja/UOL deles, então é esperado que sejam nojentos. Mas isto revela muito sobre como a depressão é encarada ainda em 2014: vi muita gente questionando como Williams poderia ser depressivo, já que tinha “dinheiro e fama”. Vi gente atribuindo a depressão a uma “decadência na carreira”. E outros que repetiram a acusação de “covarde”. 


Ora, você não chamaria alguém que morreu de câncer de “covarde”. A depressão é uma DOENÇA. Nao é “frescurite”. Não adianta ordenar que alguém fique alegre. Não adianta dizer “você tem que reagir” - como não adiantaria dizê-lo a alguém com Parkinson. A depressão exige TRATAMENTO. Químico, psicológico. Enquanto houver quem a trate como “frescura”, as mortes continuarão. Esta é uma doença que cava um oco no peito de sua vítima. Atira sua mente na neblina densa. Enfraquece o corpo até a imobilidade. É letal.

“Covarde” é o âncora da Fox, que ofende e rotula um homem que sucumbiu a uma doença sem pensar no estigma que lança sobre milhões de outros. Se você sofre com depressão, não se deixe intimidar pelos ignorantes e insensíveis. Assuma a doença e busque ajuda. Hoje. Já. Não há vergonha alguma em ser vítima da depressão. Não é sinal de fraqueza de caráter. Não depõe contra você. É apenas uma dessas coisas da vida. 

Falo isso como alguém que luta diariamente contra a depressão há 24 anos. Porque é uma luta. Sigo vencendo, mas sigo me medicando. Nao há embaraço algum nisso. Mas. Busque. Ajuda. Tem um futuro inteiro te esperando. 

Vá até ele.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

RIFA-SE UM CORAÇÃO

Conheço há tempo e em vários sites aparece como sendo da autoria de Clarice Lispector.  Sinceramente, não consegui confirmar a autoria, por isso deixo registrada como informação passível de ser contestada ou confirmada.  Entretanto, não quis deixar de compartilhar, pois é um daqueles textos que a gente lê e pensa: "Poderia ter sido escrito por mim", tamanha a identificação.



Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional Que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente E contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer.
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cazuza, pro dia nascer feliz!

Nesse mês julho de 2014, completam 24 anos que ele nos deixou, então com 32 anos.  Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.  Irreverente, irrequieto, intenso. Grande.  Poeta.
Como homenagem, exatamente agora em julho finalizamos a Copa do Mundo no Brasil, fazendo bonito ao nos mostrar ao mundo, como conclamou há mais de 20 anos: "Brasil, mostra a sua cara".  Mostramos, Cazuza.  E foi bonito de ver e sentir.  Deu tudo certo.  O que deu errado foi o desempenho da nossa seleção de futebol, mas isso faz parte do esporte.  Em nenhum momento desmerece ou desqualifica a nação hospitaleira, alegre e criativa que constituímos.  O mundo inteiro pode ver e se encantar conosco.
Do release do recente espetáculo “Pro dia nascer feliz”, a que tive a felicidade de assistir em fevereiro último, no Theatro Net Rio, com texto de Aloísio de Abreu, direção geral de João Fonseca e produção de Sandro Chaim, copio aqui:
“Não quero que me imitem.  Não quero ninguém atrás de mim.  Tenho muito medo de ser porta-voz de qualquer coisa.  Nesta declaração de 1988, Cazuza já profetizava o inevitável.  O talento instintivo e avassalador, o temperamento explosivo, a linguagem única e libertária fizeram dele um ícone sem precedentes na cultura contemporânea produzida no Brasil.  Muito mais do que isso: ainda que à revelia, foi, mesmo sem pretender sê-lo, o grande cronista da juventude brasileira dos anos 80”.
Em “te trago mil rosas roubadas” e “eu vou parar de respirar se você não me notar”, evidencia seu jeito “exagerado”, intenso de ser.  Não é à toa que, vinte e quatro anos após a sua morte, difícil sintonizar numa rádio e não ouvir uma de suas canções, seja através de sua voz ou (da voz) de outros.
Como quem sabe que o tempo não para, escreveu coisas como: “Eu não tenho data pra comemorar, as vezes os meus dias são de par em par, procurando agulha no palheiro”.  E ainda: “dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta”.
Da suavidade do seu mal disfarçado romantismo, deixou escapar: “que só eu que podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador” ou “é que eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano”.
Passou para outra dimensão, mas aqui estamos, ainda nos maravilhando, nos encantando com suas composições, tão poeta, tão Cazuza!


terça-feira, 22 de julho de 2014

Rubem Alves - encantado


 

As 25 carreiras com o melhor "custo-benefício" no Brasil

    
Na hora de escolher uma profissão, qual requisito é levado em consideração? Salário atrativo, vagas no mercado, jornada de trabalho ou a relação entre todos esses itens?
     O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) fez um estudo sobre o atual mercado de trabalho brasileiro e comparou a performance de 48 diferentes profissões. O instituto levantou qual profissional, em média, ganha mais, qual trabalhador tem a maior jornada de trabalho, qual carreira é campeã de proteção trabalhista e quem tem mais chance de conseguir outro emprego.
     Na sequência, foi traçado um ranking geral relacionando as quatro qualidades trabalhistas. No topo da lista, está medicina, com o melhor “custo-benefício”. Ela liderou entre as profissões mais bem pagas e com mais vagas no mercado, ficou em 5ª na cobertura previdenciária e em 41ª entre as profissões com melhor jornada de trabalho - o levantamento considerou como um fator negativo mais horas trabalhadas.
     Medicina é seguida por odontologia, engenharia civil e engenharia mecânica e metalúrgica. Confira abaixo a relação das profissões que mais valem à pena investir - e outras nem tanto:





ProfissõesSalário mensal (R$)Jornada (horas semanais)Taxa de ocupação (%)Cobertura previdenciária (%)
*IPEA
Medicina6.940,1242,0391,8190,72
Odontologia4.238,6537,4689,9678,63
Engenharia civil4.604,4141,7490,1187,96
Engenharia mecânica e metalúrgica4.258,6940,9689,1790,53
Serviços de transportes4.460,8941,9189,1491,47
Estatística5.416,1039,0581,8289,70
Engenharia elétrica e automação3.734,1041,7388,0790,92
Engenharia (outros)4.168,0541,01 85,74 89,48
Setor militar e de defesa4.433,6742,4683,6397,15
Computação2.886,5740,7389,6190,50
Engenharia química 4.549,1241,5383,39 91,07
Arquitetura e urbanismo4.206,0139,78 86,8474,31 
Serviços de segurança2.785,4741,41 87,2394,57
Direito4.104,8438,9483,28 79,71
Farmácia2.964,3840,88 85,53 92,54
Matemática2.216,9637,69 84,23 91,48
Administração3.057,3141,27 86,5588,72
Marketing e publicidade3.517,6940,9885,7284,42
Psicologia3.529,7735,68 79,1782,40 
Administração e secretariado2.866,2741,07 86,2389,43 
Educação e formação de professores1.844,2935,52 82,3090,30 
Física2.961,3937,97 81,7188,23 
Comunicação social (jornalistas)3.655,0139,00 82,2582,18 
Engenharia naval e aeronáutica4.089,2942,8583,3688,41 
Proteção ambiental2.187,2140,0386,2089,55    
Fonte: http://dinheiro.br.msn.com/comportamento/as-25-carreiras-com-o-melhor-custo-benef%C3%ADcio-no-brasil?page=0




























































































































segunda-feira, 7 de julho de 2014

Opinião: Copa das Copas revela para o mundo o encanto do Brasil

Jogadores de todas as seleções se apoderaram de uma força estranha, como na famosa música
                                                Getty Images
Algo incrível está acontecendo nesta Copa do Mundo de 2014. Um país está mostrando ao mundo muito mais do que as lindas paisagens, o calor humano do povo ou as mazelas de uma população. O Brasil está deixando todos intrigados, ao expor uma novidade que não se pode ser vista a olho nu.
É um maravilhamento invisível que paira oculto na atmosfera. Uma força estranha, como na música de Caetano, repleta de caráter transformador. Que carrega um encanto. O planeta está rendido, abismado, somente agora entendendo, ou melhor, intuindo, o porquê de aqui ser o país do futebol.
Talvez seja uma revelação tão profunda como a de Moisés, que,do Monte Sinai, sob ventania e trovoadas, apresentou as tábuas das leis aos judeus. Ou tão desejável como a busca da fonte da juventude pelo explorador Ponce de León, que, extasiado diante das cores e flores de um lugar na atual América, chamou tudo aquilo de Florida. Esses fenômenos se irmanam por tocarem na essência humana.
Os países que estão disputando este Mundial, experimentam aquilo que já estamos tão acostumados e que, por isso, nem percebemos mais existir: um elixir, a fonte de nossa existência, tão presente na nossa ginga, no nosso drible, na nossa dança, na nossa música, nos nossos campos, na nossa bola. Uma interação plena do corpo e da alma a comunicar perfeitamente verdades não verbalizadas.
Não é à toda que, ainda em primeira pessoa, nosso hino, tão aclamado à capela, contém a sábia frase: nossos bosques têm mais vida. Um espectro dos deuses sagrados do futebol, que fizeram daqui o seu Olimpo, está se manifestando bem mais intensamente do que algumas manifestações marcadas artificialmente.
Então, assim, até um jogador sem molejo, enrijecido, sai jogando aqui, e consegue se apoderar de uma energia que o faz dar dribles sensacionais, arrancadas, fazer gols de direita, de esquerda, de voleio, de contra-ataque mortal, com toda equipe correndo em harmonia, como se fossem passistas de uma cerimônia de abertura fascinante. A Copa do Mundo no Brasil está sendo uma coreografia do que o brasileiro tem de melhor.
Está acontecendo isso. O futebol, como um todo, redescobriu o Brasil nesta Copa. Todas as seleções, como se estivessem em uma Disneylândia de sonhos, passaram a ter uma relação íntima com a bola, potencializada pela atmosfera que reina no país. E interpretada com a vibração da torcida, uma espécie de reflexo de toda essa beleza dos gramados.
Não há um jogo que não esbanjou emoções nesta competição que, disparada, já é a Copa das Copas, por toda esta fantástica emanação que floresceu em todos que dela participam. Não duvido que haja jogadores que se olham no espelho e não mais se reconhecem. "O que estaria acontecendo comigo?", perguntam-se. "Que semblante de vida é esse, que nunca vi estampado desta maneira no meu rosto?"
Pois bem. Os atletas vestiram esse clima, como um uniforme oculto ou um doping natural que acendeu algo neles. O jogo está tão solto tal qual as peladas organizadas nos morros do Rio de Janeiro, composta de meninos serelepes, calejados, que driblam a miséria, que emanam ritmo, que pulsam como o samba.
As seleções estão contagiadas por esta energia. Ao contrário do que muita gente temia, o mundo, outrora cético, se coloca aos pés de nossas maravilhas. Está embasbacado ao ver os saltos de seus goleiros, peixinhos impossíveis, viradas sensacionais, piques mais velozes do que os de Bolt, cobranças certeiras, placares elásticos, movimentações constantes até nos 0 x 0. Como, por mais apaixonado que seja pelo jogo, nunca viu antes.
Aqui nesta temporada de Brasil, embevecidos pelos braços acolhedores do povo, que também fazem parte deste cenário, todos estão percebendo que o drible não é uma jogada concreta. Ele não é construído. Ele emana. E, bobos que não são, estão se aproveitando deste alimento espiritual.
Lembre-se, porém, que tal troféu ostentado por aqui não alcança somente as estantes da Fifa ou as estatísticas futebolísticas. Não se resume a pentas ou hexas. Essa áurea simplesmente explica o Brasil, sem palavras, sem números.
E tem o poder de se propagar para além das galáxias, ultrapassando o silêncio do espaço sideral. Onde, até o mais solitário dos astronautas, sem ouvir, pode perceber o momento em que emerge a emoção de um grito de gol. Quando acontece, ele nem tem dúvidas de onde isso vem. De terras brasileiras, é claro.
Por Eugenio Goussinsky, do R7, in: http://esportes.r7.com/futebol/copa-do-mundo-2014/opiniao-copa-das-copas-revela-para-o-mundo-o-encanto-do-brasil-22062014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Onde está a aluna marxista?

Copio aqui, na íntegra, postagem feita em: Diário do Centro do Mundo, em 24/06/2014. (Substituí, apenas, a imagem).
Maria Clara Bubna, 20 anos, é estudante do 1° período de Direito na UERJ e integra o Coletivo de Mulheres da sua Universidade.
Ela era – até ele pedir exoneração – aluna do Professor Bernardo Santoro, autor de uma postagem de conteúdo debochado e pra lá de machista feita, publicamente, em seu facebook, e repudiado, recentemente, e com toda a razão, pelo Coletivos de Mulheres da UFRJ, outra Universidade na qual Bernardo leciona.
Depois disso, Bubna diz que passou a ser perseguida pelo professor. Ele afirma o contrário, mesmo estando hierarquicamente, acima da aluna, em sua relação dento da Universidade, e atribui a autoria do repúdio à Bubna e seu Coletivo, embora a Nota de Repúdio tenha sido publicada por outro Coletivo Feminista, de outra Universidade, a UFRJ.
A estudante ficou um tanto surpresa e assustada com o rumo que o assunto tomou e a repercussão que teve, mas resolveu quebrar seu silêncio e contar sua versão da história em seu depoimento intitulado “Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz”, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.
“Parabéns” sqn, Professor Bernardo Santoro! O Senhor conseguiu ficar famoso como o machistinha mais comentado das redes sociais dos últimos dias! Melhor repensares o conteúdo das piadas que levas à público, uma vez que és pessoa pública e formador de opinião. Recomendo mais cautela.
E parabéns, de verdade, a ti, Maria Clara Bubna, que optou por não ficar calada, apesar de, como tu mesma disseste no teu manifesto, seres “o elo mais fraco desta relação”, por seres aluna, por seres mulher, por seres ainda muito jovem.

Segue o Manifesto de Maria Clara Bubna:
SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ
Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.
Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.
Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.
Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”
No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona.
A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.
Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.
Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.
Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.
Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.
No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco.
Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.
O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.

Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.
No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.
Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.
A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.
Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.

Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.
Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.
Abrace e empodere sua voz.
Maria Clara Bubna
Rio de Janeiro, junho de 2014.
In: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/onde-esta-a-aluna-marxista-a-briga-entre-um-professor-e-uma-estudante-na-uerj/