quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sobre depressão, luta e covardia

A morte, essa única certeza que temos na vida, nos choca a todos.  Por vezes, nos silencia; outras, nos faz falar, na tentativa de pôr pra fora o que nos assombra, nos desola ou, simplesmente nos faz pensar...

Na última segunda-feira, dia onze de agosto, morreu Robin Williams.  Do muito que tem sido falado, escrito, comentado, me identifiquei particularmente com a postagem feita pelo escritor, diretor e crítico de cinema, Pablo Villaça, em sua página no facebook.  Não tecerei quaisquer considerações acerca do seu registro. Compartilho aqui e desejo que possam saborear suas palavras, como todo texto bem escrito merece e faz merecer a seus leitores!



Âncora da Fox News chama Robin Williams de “covarde” por ter se matado. A Fox é a Veja/UOL deles, então é esperado que sejam nojentos. Mas isto revela muito sobre como a depressão é encarada ainda em 2014: vi muita gente questionando como Williams poderia ser depressivo, já que tinha “dinheiro e fama”. Vi gente atribuindo a depressão a uma “decadência na carreira”. E outros que repetiram a acusação de “covarde”. 


Ora, você não chamaria alguém que morreu de câncer de “covarde”. A depressão é uma DOENÇA. Nao é “frescurite”. Não adianta ordenar que alguém fique alegre. Não adianta dizer “você tem que reagir” - como não adiantaria dizê-lo a alguém com Parkinson. A depressão exige TRATAMENTO. Químico, psicológico. Enquanto houver quem a trate como “frescura”, as mortes continuarão. Esta é uma doença que cava um oco no peito de sua vítima. Atira sua mente na neblina densa. Enfraquece o corpo até a imobilidade. É letal.

“Covarde” é o âncora da Fox, que ofende e rotula um homem que sucumbiu a uma doença sem pensar no estigma que lança sobre milhões de outros. Se você sofre com depressão, não se deixe intimidar pelos ignorantes e insensíveis. Assuma a doença e busque ajuda. Hoje. Já. Não há vergonha alguma em ser vítima da depressão. Não é sinal de fraqueza de caráter. Não depõe contra você. É apenas uma dessas coisas da vida. 

Falo isso como alguém que luta diariamente contra a depressão há 24 anos. Porque é uma luta. Sigo vencendo, mas sigo me medicando. Nao há embaraço algum nisso. Mas. Busque. Ajuda. Tem um futuro inteiro te esperando. 

Vá até ele.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

RIFA-SE UM CORAÇÃO

Conheço há tempo e em vários sites aparece como sendo da autoria de Clarice Lispector.  Sinceramente, não consegui confirmar a autoria, por isso deixo registrada como informação passível de ser contestada ou confirmada.  Entretanto, não quis deixar de compartilhar, pois é um daqueles textos que a gente lê e pensa: "Poderia ter sido escrito por mim", tamanha a identificação.



Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional Que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente E contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer.
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cazuza, pro dia nascer feliz!

Nesse mês julho de 2014, completam 24 anos que ele nos deixou, então com 32 anos.  Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.  Irreverente, irrequieto, intenso. Grande.  Poeta.
Como homenagem, exatamente agora em julho finalizamos a Copa do Mundo no Brasil, fazendo bonito ao nos mostrar ao mundo, como conclamou há mais de 20 anos: "Brasil, mostra a sua cara".  Mostramos, Cazuza.  E foi bonito de ver e sentir.  Deu tudo certo.  O que deu errado foi o desempenho da nossa seleção de futebol, mas isso faz parte do esporte.  Em nenhum momento desmerece ou desqualifica a nação hospitaleira, alegre e criativa que constituímos.  O mundo inteiro pode ver e se encantar conosco.
Do release do recente espetáculo “Pro dia nascer feliz”, a que tive a felicidade de assistir em fevereiro último, no Theatro Net Rio, com texto de Aloísio de Abreu, direção geral de João Fonseca e produção de Sandro Chaim, copio aqui:
“Não quero que me imitem.  Não quero ninguém atrás de mim.  Tenho muito medo de ser porta-voz de qualquer coisa.  Nesta declaração de 1988, Cazuza já profetizava o inevitável.  O talento instintivo e avassalador, o temperamento explosivo, a linguagem única e libertária fizeram dele um ícone sem precedentes na cultura contemporânea produzida no Brasil.  Muito mais do que isso: ainda que à revelia, foi, mesmo sem pretender sê-lo, o grande cronista da juventude brasileira dos anos 80”.
Em “te trago mil rosas roubadas” e “eu vou parar de respirar se você não me notar”, evidencia seu jeito “exagerado”, intenso de ser.  Não é à toa que, vinte e quatro anos após a sua morte, difícil sintonizar numa rádio e não ouvir uma de suas canções, seja através de sua voz ou (da voz) de outros.
Como quem sabe que o tempo não para, escreveu coisas como: “Eu não tenho data pra comemorar, as vezes os meus dias são de par em par, procurando agulha no palheiro”.  E ainda: “dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta”.
Da suavidade do seu mal disfarçado romantismo, deixou escapar: “que só eu que podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador” ou “é que eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano”.
Passou para outra dimensão, mas aqui estamos, ainda nos maravilhando, nos encantando com suas composições, tão poeta, tão Cazuza!


terça-feira, 22 de julho de 2014

Rubem Alves - encantado


 

As 25 carreiras com o melhor "custo-benefício" no Brasil

    
Na hora de escolher uma profissão, qual requisito é levado em consideração? Salário atrativo, vagas no mercado, jornada de trabalho ou a relação entre todos esses itens?
     O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) fez um estudo sobre o atual mercado de trabalho brasileiro e comparou a performance de 48 diferentes profissões. O instituto levantou qual profissional, em média, ganha mais, qual trabalhador tem a maior jornada de trabalho, qual carreira é campeã de proteção trabalhista e quem tem mais chance de conseguir outro emprego.
     Na sequência, foi traçado um ranking geral relacionando as quatro qualidades trabalhistas. No topo da lista, está medicina, com o melhor “custo-benefício”. Ela liderou entre as profissões mais bem pagas e com mais vagas no mercado, ficou em 5ª na cobertura previdenciária e em 41ª entre as profissões com melhor jornada de trabalho - o levantamento considerou como um fator negativo mais horas trabalhadas.
     Medicina é seguida por odontologia, engenharia civil e engenharia mecânica e metalúrgica. Confira abaixo a relação das profissões que mais valem à pena investir - e outras nem tanto:





ProfissõesSalário mensal (R$)Jornada (horas semanais)Taxa de ocupação (%)Cobertura previdenciária (%)
*IPEA
Medicina6.940,1242,0391,8190,72
Odontologia4.238,6537,4689,9678,63
Engenharia civil4.604,4141,7490,1187,96
Engenharia mecânica e metalúrgica4.258,6940,9689,1790,53
Serviços de transportes4.460,8941,9189,1491,47
Estatística5.416,1039,0581,8289,70
Engenharia elétrica e automação3.734,1041,7388,0790,92
Engenharia (outros)4.168,0541,01 85,74 89,48
Setor militar e de defesa4.433,6742,4683,6397,15
Computação2.886,5740,7389,6190,50
Engenharia química 4.549,1241,5383,39 91,07
Arquitetura e urbanismo4.206,0139,78 86,8474,31 
Serviços de segurança2.785,4741,41 87,2394,57
Direito4.104,8438,9483,28 79,71
Farmácia2.964,3840,88 85,53 92,54
Matemática2.216,9637,69 84,23 91,48
Administração3.057,3141,27 86,5588,72
Marketing e publicidade3.517,6940,9885,7284,42
Psicologia3.529,7735,68 79,1782,40 
Administração e secretariado2.866,2741,07 86,2389,43 
Educação e formação de professores1.844,2935,52 82,3090,30 
Física2.961,3937,97 81,7188,23 
Comunicação social (jornalistas)3.655,0139,00 82,2582,18 
Engenharia naval e aeronáutica4.089,2942,8583,3688,41 
Proteção ambiental2.187,2140,0386,2089,55    
Fonte: http://dinheiro.br.msn.com/comportamento/as-25-carreiras-com-o-melhor-custo-benef%C3%ADcio-no-brasil?page=0




























































































































segunda-feira, 7 de julho de 2014

Opinião: Copa das Copas revela para o mundo o encanto do Brasil

Jogadores de todas as seleções se apoderaram de uma força estranha, como na famosa música
                                                Getty Images
Algo incrível está acontecendo nesta Copa do Mundo de 2014. Um país está mostrando ao mundo muito mais do que as lindas paisagens, o calor humano do povo ou as mazelas de uma população. O Brasil está deixando todos intrigados, ao expor uma novidade que não se pode ser vista a olho nu.
É um maravilhamento invisível que paira oculto na atmosfera. Uma força estranha, como na música de Caetano, repleta de caráter transformador. Que carrega um encanto. O planeta está rendido, abismado, somente agora entendendo, ou melhor, intuindo, o porquê de aqui ser o país do futebol.
Talvez seja uma revelação tão profunda como a de Moisés, que,do Monte Sinai, sob ventania e trovoadas, apresentou as tábuas das leis aos judeus. Ou tão desejável como a busca da fonte da juventude pelo explorador Ponce de León, que, extasiado diante das cores e flores de um lugar na atual América, chamou tudo aquilo de Florida. Esses fenômenos se irmanam por tocarem na essência humana.
Os países que estão disputando este Mundial, experimentam aquilo que já estamos tão acostumados e que, por isso, nem percebemos mais existir: um elixir, a fonte de nossa existência, tão presente na nossa ginga, no nosso drible, na nossa dança, na nossa música, nos nossos campos, na nossa bola. Uma interação plena do corpo e da alma a comunicar perfeitamente verdades não verbalizadas.
Não é à toda que, ainda em primeira pessoa, nosso hino, tão aclamado à capela, contém a sábia frase: nossos bosques têm mais vida. Um espectro dos deuses sagrados do futebol, que fizeram daqui o seu Olimpo, está se manifestando bem mais intensamente do que algumas manifestações marcadas artificialmente.
Então, assim, até um jogador sem molejo, enrijecido, sai jogando aqui, e consegue se apoderar de uma energia que o faz dar dribles sensacionais, arrancadas, fazer gols de direita, de esquerda, de voleio, de contra-ataque mortal, com toda equipe correndo em harmonia, como se fossem passistas de uma cerimônia de abertura fascinante. A Copa do Mundo no Brasil está sendo uma coreografia do que o brasileiro tem de melhor.
Está acontecendo isso. O futebol, como um todo, redescobriu o Brasil nesta Copa. Todas as seleções, como se estivessem em uma Disneylândia de sonhos, passaram a ter uma relação íntima com a bola, potencializada pela atmosfera que reina no país. E interpretada com a vibração da torcida, uma espécie de reflexo de toda essa beleza dos gramados.
Não há um jogo que não esbanjou emoções nesta competição que, disparada, já é a Copa das Copas, por toda esta fantástica emanação que floresceu em todos que dela participam. Não duvido que haja jogadores que se olham no espelho e não mais se reconhecem. "O que estaria acontecendo comigo?", perguntam-se. "Que semblante de vida é esse, que nunca vi estampado desta maneira no meu rosto?"
Pois bem. Os atletas vestiram esse clima, como um uniforme oculto ou um doping natural que acendeu algo neles. O jogo está tão solto tal qual as peladas organizadas nos morros do Rio de Janeiro, composta de meninos serelepes, calejados, que driblam a miséria, que emanam ritmo, que pulsam como o samba.
As seleções estão contagiadas por esta energia. Ao contrário do que muita gente temia, o mundo, outrora cético, se coloca aos pés de nossas maravilhas. Está embasbacado ao ver os saltos de seus goleiros, peixinhos impossíveis, viradas sensacionais, piques mais velozes do que os de Bolt, cobranças certeiras, placares elásticos, movimentações constantes até nos 0 x 0. Como, por mais apaixonado que seja pelo jogo, nunca viu antes.
Aqui nesta temporada de Brasil, embevecidos pelos braços acolhedores do povo, que também fazem parte deste cenário, todos estão percebendo que o drible não é uma jogada concreta. Ele não é construído. Ele emana. E, bobos que não são, estão se aproveitando deste alimento espiritual.
Lembre-se, porém, que tal troféu ostentado por aqui não alcança somente as estantes da Fifa ou as estatísticas futebolísticas. Não se resume a pentas ou hexas. Essa áurea simplesmente explica o Brasil, sem palavras, sem números.
E tem o poder de se propagar para além das galáxias, ultrapassando o silêncio do espaço sideral. Onde, até o mais solitário dos astronautas, sem ouvir, pode perceber o momento em que emerge a emoção de um grito de gol. Quando acontece, ele nem tem dúvidas de onde isso vem. De terras brasileiras, é claro.
Por Eugenio Goussinsky, do R7, in: http://esportes.r7.com/futebol/copa-do-mundo-2014/opiniao-copa-das-copas-revela-para-o-mundo-o-encanto-do-brasil-22062014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Onde está a aluna marxista?

Copio aqui, na íntegra, postagem feita em: Diário do Centro do Mundo, em 24/06/2014. (Substituí, apenas, a imagem).
Maria Clara Bubna, 20 anos, é estudante do 1° período de Direito na UERJ e integra o Coletivo de Mulheres da sua Universidade.
Ela era – até ele pedir exoneração – aluna do Professor Bernardo Santoro, autor de uma postagem de conteúdo debochado e pra lá de machista feita, publicamente, em seu facebook, e repudiado, recentemente, e com toda a razão, pelo Coletivos de Mulheres da UFRJ, outra Universidade na qual Bernardo leciona.
Depois disso, Bubna diz que passou a ser perseguida pelo professor. Ele afirma o contrário, mesmo estando hierarquicamente, acima da aluna, em sua relação dento da Universidade, e atribui a autoria do repúdio à Bubna e seu Coletivo, embora a Nota de Repúdio tenha sido publicada por outro Coletivo Feminista, de outra Universidade, a UFRJ.
A estudante ficou um tanto surpresa e assustada com o rumo que o assunto tomou e a repercussão que teve, mas resolveu quebrar seu silêncio e contar sua versão da história em seu depoimento intitulado “Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz”, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.
“Parabéns” sqn, Professor Bernardo Santoro! O Senhor conseguiu ficar famoso como o machistinha mais comentado das redes sociais dos últimos dias! Melhor repensares o conteúdo das piadas que levas à público, uma vez que és pessoa pública e formador de opinião. Recomendo mais cautela.
E parabéns, de verdade, a ti, Maria Clara Bubna, que optou por não ficar calada, apesar de, como tu mesma disseste no teu manifesto, seres “o elo mais fraco desta relação”, por seres aluna, por seres mulher, por seres ainda muito jovem.

Segue o Manifesto de Maria Clara Bubna:
SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ
Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.
Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.
Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.
Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”
No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona.
A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.
Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.
Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.
Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.
Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.
No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco.
Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.
O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.

Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.
No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.
Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.
A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.
Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.

Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.
Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.
Abrace e empodere sua voz.
Maria Clara Bubna
Rio de Janeiro, junho de 2014.
In: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/onde-esta-a-aluna-marxista-a-briga-entre-um-professor-e-uma-estudante-na-uerj/